A Carpintaria dos Seriados de Tv

O seriado é atualmente o gênero dramático em maior volume de produção do mundo. O que emprega mais artistas e técnicos. Onde se desenvolvem novos e talentosos roteiristas. Um espaço para as cinematografias nacionais se desenvolverem nas emissoras de televisão aberta, a cabo ou na internet. Mas como aprender a escrever uma série em episódios?

Não imagine que seja como as telenovelas, com dramaturgia aberta: com principio, meio e nunca sabemos à priori o fim. Dependendo sempre do sucesso de um personagem ou núcleo dramático da historia junto ao público. Uma trama levada meio ao sabor das opiniões e tendências externas ao roteiro. Com uma linguagem quase sempre muito teatral e pouco conteúdo.

O seriado tem um compromisso com o ritmo, a trama, a qualidade da construção dos personagens e o conteúdo temático. Essas pequenas notas são o resultado de um trabalho árduo junto com outros roteiristas que estão participando da escritura da série policial sobre um novo braço da máfia italiana da região de Puglia que atua na Argentina e no Brasil: a Sacra Corona Unitá. Há dez anos venho pesquisando tudo que existe na imprensa oficial e oficiosa para poder montar uma trama que revele os meandros dos grandes negócios urbanos: contratos públicos de recolhimento do lixo, obras e construções civis aos órgãos públicos, assaltos a bancos terceirizados, aplicação e lavagem de dinheiro sujo em empreendimentos turísticos internacionais (resorts, hotéis, motéis, navios de turismo, cassinos, prostituição e outras formas de lazer).

Deparamo-nos com associações de grupos do crime internacional, capitalização de novas fontes das milícias e do tráfico internacional de armas pesadas e militares; e lógico, por traz de tudo, o tráfico internacional de cocaína. Após ampla pesquisa de campo e busca documental existente, passamos a parte prática da criação de um roteiro para uma série de curta duração para televisão e um roteiro de um filme de longa-metragem para as salas de exibição convencional.

Durante o desenvolvimento deste trabalho de roteirizarão chegamos ao final de um determinado período a uma metodologia de criação que gostaríamos de compartilhar com os que se dedicam a escrever para as telas. Vejamos: após reunir e selecionar um vasto material informativo já publicado em livros e matérias sobre o sobre o tema. Sempre que reunimos muita informação real sobre fatos e personagens, somos obrigados a nos concentrar num núcleo dramático principal que conduzirá a trama. E isso ocorreu conosco tal qual o seriado da Família Soprano. Onde há uma família tipicamente americana de classe média alta e uma família periférica que integram o bando por ligação extra familiar.

Sentimos a necessidade dramatúrgica de que este núcleo central não ultrapassasse a seis personagens. Antes de entrarmos na trama sentimo-nos obrigados a dar “alma” a esses personagens. Evitando que fossem esquemáticos. Bonzinhos ou malvados. Heróis ou anti-heróis, especiais ou bizarros. Que fosse gente como a gente. Personagens que possuíssem um sonho, um projeto de vida, contradições e que sua personalidade fosse o resultado da sua vivência, seu meio e formação. Construímos o seu passado, mesmo que ele não entrasse em nossa trama, mas lhe desse estofo psicológico e comportamental. Lhes demo físico, aparência, nome, profissão e nível cultural e sócio econômico, religião, família e sonhos.

Esse trabalho ajudou-nos muito a construir a trama, deu veracidade as nossas situações enriquecendo os diálogos que se tornaram verossímeis e bastante coloquiais.

A segunda etapa foi elaborar uma grande sinopse da trama geral, com principio, meio e fim. Por que escrevemos toda a trama principal? Para que pudéssemos ter uma visão geral e saber onde cortar a narrativa em episódios mantendo o interesse e a compreensão do espectador. Sabendo a priori onde começaria e finalizaria cada episódio. Não apenas preocupados com uma questão de tempo, da duração do episódio fosse ele de 15, 30 ou 60 minutos. Tratando cada episódio com principio meio e fim em si mesmo, mas ficando sempre ligado a narrativa global do total da serie.

Neste momento foi muito importante ser muito seletivo na escolha dos fatos mais relevantes da série para compreensão da historia narrada. O resultado desse trabalho metodológico de criação facilitou-nos a estruturação de cada capítulo. A partir da sinopse geral foi também possível orientarmo-nos para o desenvolvimento da sinopse de cada episódio. Findo isto, tivemos então que desenvolver cada sinopse de cada episódio em roteiros.

Percebemos que para não dispersar a narrativa em outras narrativas secundárias, criando personagens inúteis, usamos o seguinte método: montar uma escaleta do episódio centralizando o processo criativo nos fatos mais importantes a serem narrados ao espectador para a posteriori trabalharmos no roteiro do episódio propriamente dito sem perder a visão de conjunto da serie como um todo. Isso revelou-nos qualidades e fragilidades narrativas de cada episódio. Deu-nos possibilidade de cortarmos ou inserimos informações de conteúdo dramático. Requalificarmos a trama com novos fatos e informações.

A roteirização destas escaletas tornou-se um trabalho agradável e de equipe. Todos conheciam muito bem a trama central, os personagens e escrevíamos na mesma direção. Todos agindo individualmente e sendo avaliados coletivamente pela equipe. Os textos ganharam time, suspense, soluções inteligentes, humor qualidade. Terminamos um primeiro tratamento aprimorado nas novas versões que foram feitas, e não foram poucas até atingirmos uma série de 5 capítulos de meia hora, totalizando duas horas e trinta minutos de um bom entretenimento.

Jorge Monclar

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