O uso da Cor na Fotografia de Cinema e Tv

É muito comum assistirmos filmes em cinema e produtos de ficção exibidos na televisão com belas imagens mas que acrescentam muito pouco a dramaturgia da obra. E como resultado dramático poderia ser melhor? Onde está o problema, na luz? No enquadramento? Na edição? Na finalização? Reflitamos juntos. A fotografia de um filme é como a embalagem de um produto. Ela deve ter uma boa qualidade de apresentação, bom gosto e sobretudo ter uma relação com o produto em si. O mesmo acontece com o audiovisual de ficção. Você pode ter um ótimo conteúdo resultado de um roteiro extraordinário, um elenco de qualidade com muita empatia entre os personagens e o espectador, figurinos mágicos e cenários deslumbrantes, mas se não houver uma unidade no uso das cores…  Cada departamento da equipe estará fazendo um filme.

É fundamental que todos os departamentos da equipe trabalhem sobre a mesma paleta de cores. Escolhendo a cor é que dará unidade visual ao filme. Assim como, as sub cores desta cor principal que se harmonizará com as demais nos planos. Criará um clima dramático que fará interagir todos os elementos narrativos contidos na imagem: texto, atuação, maquiagem, figurinos e cenários. O ideal é iniciarmos o processo montando uma paleta de cor proposta pela época dramatúrgica do filme.

Imaginemos uma história ambientada no século XIX onde a fonte luminosa dos ambientes eram lampiões, velas ou tochas de fogo. A cor predominante seria as variações entre os tons terrosos passando por todos os marrons até o vermelho. Não cabe num ambiente deste trabalharmos com tons pasteis difusos. Temos sempre que atentar as intenções propostas pelo enredo e os personagens envolvidos na trama. Buscamos isso no roteiro e nas intenções narrativas do diretor da obra audiovisual. Tal qual um pintor quando fixa um momento narrativo de uma cena no seu quadro, ele a localiza no tempo.

Tomemos como exemplo um quadro do pintor holandês Rembrandt: “A lição de Anatomia do Doutor Tulp”, pintado em 1632, o uso da cor cria o clima necessário à cena. Os oito personagens estão vestidos de preto, mas com volumosas golas brancas para dar realce aos olhares dos personagens. Seus rostos são iluminadas por uma luz branca, vinda do exterior. O cenário tem pouquíssimos elementos cenográficos e tudo indo para a penumbra escura. Rembrant, como um Diretor de Fotografia concentra-se no essencial da cena.

Para dar importância ao corpo do morto ele foi colocado na diagonal, (sobre uma mesa de madeira bruta, num tom amarronzado) ocupando quase todo o quadro, onde a maior parte da luz principal recai sobre o ventre e a púbis do morto. É coberto por um lençol branco para não dispersar o olhar do espectador da única cor forte (vermelho) do quadro: o braço dissecado pelo cirurgião. A maior parte da luz em quadro recai sobre o corpo do morto, a figura central da cena iluminada no limite de saturação da cor amarelecida. É uma demonstração do uso da cor como clima visual narrativo. E isso não acontece apenas com os pintores realistas.

É só examinar as visões do cotidiano urbano, pintadas pelo americano  Edward Hopper, onde ele usa  também as cores como elemento narrativo que obedece uma paleta de cores quentes (nas roupas, no cenário, nos objetos de cena). Podemos perceber isso em seu quadro mais famoso: “Nighthawks” (Aves da noite), pintado em 1942, onde trabalha com um severo jogo de luz e cor. Retrata a solidão do mundo moderno urbano. Neste quadro, a noite calma lá fora da lanchonete é retratada por azuis e tons amarronzados das fachadas e as cores fortes, como o vermelho e o amarelo, o interior visto através das vitrines e janelas. É evidente que tudo isso obedece a uma paleta de cores pensada antes das pinceladas. O mesmo que faz um diretor de fotografia quando concebe a paleta de cores do seu filme a ser dividida com o Diretor de arte, a Figurinista, o Cenógrafo  de um filme. A cor é a alma gêmea da luz no audiovisual.

Jorge Monclar – Diretor de Fotografia

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